| Em memória de
Janine Niépce (1921-2007)
É assim que se entende a emoção vivida no mundo inteiro quando, em 1839, se descobriu a fotografia. Um sonho que se tornou realidade. Essa exposição conta uma história que começa oficialmente em Paris para continuar até hoje. As reproduções apresentadas foram escolhidas dentre milhares de cópias conservadas na Biblioteca Nacional da França, no Museu d’Orsay e no Centro Pompidou em Paris, três das mais ricas coleções públicas existentes no mundo. O Ministério da Cultura, a Escola Nacional de Belas Artes de Paris, a Fundação Jacques Henri Lartigue, o Estate Brassaï, colecionadores particulares, fotógrafos, artistas ou os seus detentores de direitos autorais nos acompanharam nessa aventura. Cada uma dessas imagens é apresentada com um texto que conta a respectiva história da fotografia e do seu autor, da França e dos franceses; como também de Paris. Escolher apenas uma obra por artista permitiu que fossem expostos ao lado dos gênios Nicéphore Niépce, Louis-Adolphe Humbert de Molard, Gustave Le Gray, Charles Nègre, Eugène Cuvelier, os irmãos Bisson, Félix Nadar e Eugène Atget, fotógrafos menos conhecidos como Édouard Baldus, Charles Marville ou Auguste Collard, e também cópias de amadores anônimos ou célebres como Jacques Henri Lartigue ou o conde Robert de Montesquiou. No entanto, não se entenderia a fotografia sem o acompanhamento da evolução de sua técnica. No início de sua história, esta técnica é pouco a pouco elaborada por ricos inventores apaixonados por fotografia. Com a evolução das técnicas (reprodutibilidade de cópias, diminuição do tempo de exposição...), ela passa a ser comercializada por fotógrafos talentosos como Félix Nadar e Mayer & Pierson. Ferramenta da propaganda imperial de Napoleão III (1852-1870), ela testemunha ao longo de sua existência as mudanças urbanísticas (grandes obras de Paris), políticas (a Comuna), sociais (êxodo rural) de uma sociedade em constante mutação. Mas a fotografia oscila igualmente entre arte e ciência. Em 1839, o ministro e cientista François Arago prevê-lhe um papel científico. “Repertório de imagens”, ela pode ser selecionada, classificada, comparada, analisada pelos irmãos Henry, astrônomos; Alphonse Bertillon, fundador do serviço parisiense da Identidade Judiciária; o doutor Raviart, psiquiatra, ou o fisiologista Jules Marey. Outro fisiologista, Duchenne de Boulogne quer colocar o seu “repertório de expressões” à serviço dos estudantes da Escola de Belas Artes de Paris. Extraordinários fotógrafos franceses como Charles Nègre e Gustave Le Gray foram grandes pintores. Artistas de grande prestígio tais como Eugène Delacroix ou Edgar Degas a utilizaram para criar um “repertório de poses iconográficas”. No início do século XX os pictorialistas, dentre os quais Constant Puyo, quiseram, pela adição de materiais à composição de suas obras, obter um aspecto próximo ao da pintura. Após o caos da guerra de 1914-1918, os surrealistas brincam com experimentos de novas técnicas. Com Man Ray, Dora Maar ou Raoul Ubac, a fotografia não é mais apenas “representação”, ela é também “objeto” de criação. Entretanto, à partir de 1930, fotógrafos humanistas como Brassaï, André Kertész, Robert Doisneau vão ao encontro de uma Paris poética, aquela das crianças, dos delinquentes e dos amantes. Com o desenvolvimento da imprensa, Janine Niépce e Sabine Weiss, que se tornaram repórteres fotográficos, cobrem a atualidade política e social. A fotografia é onipresente em revistas e livros. Ela também se mostra nos muros das cidades. Para suas fotografias de moda, Frank Horvat prefere a rua aos estúdios. As agências se multiplicam. Dentre os fundadores da agência Magnum em 1947, Henri Cartier Bresson procura o “instante decisivo”. Ao lado de Martine Franck e de Raymond Depardon, o fotógrafo controla diretamente a utilização e a comercialização de suas obras. “Fotógrafo jornalista”, Gilles Caron cobre a mais perigosa atualidade, chegando assim a perder a sua vida. Jeanloup Sieff divulga suas fotografias retraçando sua obra. Agnès Varda imortaliza Gérard Philipe sobre o palco do festival de Avignon antes de se lançar no cinema e na “criação contemporânea”. A fotografia estava a um passo das artes plásticas. Com Bernard Faucon, Patrick Tosani, Valérie Belin, Frank Perrin, Valérie Jouve, a fotografia torna-se um meio de criação, uma ferramenta a serviço dos artistas plásticos. Ela é “memória” com Bernard Plossu e Georges Rousse. Ela se transforma em “Quadro” com Jean-Marc Bustamante. Quanto à Bertrand Lavier, ele nem é fotógrafo. Essa exposição deseja destacar a extraordinária vitalidade de uma criação iniciada na França ha menos de dois séculos. Ela deseja principalmente permitir a cada um de nós que testemunhe uma história. “A fotografia não diz (necessariamente) o que não mais é, mas somente e certamente o que foi.” Roland Barthes, O quarto claro (La chambre claire). Nota sobre a fotografia, 1980.
Sophie Schmit é historiadora de arte, jornalista e curadora independente. Suas últimas exposições foram: Paris em Xangai (Paris à Shanghai); Três Gerações de Fotógrafos Franceses (Trois Générations de Photographes Français) – Musée des Beaux-Arts, Xangai, 2005; Os Fantasmas de Odessa (Les Fantômes d’Odessa) de Christian Boltanski – Bienal de Arte Contemporânea, Moscou, 2005; O Terceiro Olho (Le Troisième Œil); A Fotografia e o Oculto (La Photographie et l’Occulte – Maison Européenne de la Photographie, Paris, 2004-2005 e Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque, 2005-2006.
|